Descubra por que a birra da criança impacta a saúde mental dos pais e como usar a neuropsicologia a seu favor para lidar com isso de modo consciente.
Seu filho faz birra e isso impacta a sua saúde mental
Pouca gente fala com honestidade sobre o impacto emocional da birra da criança na rotina dos pais, mas a birra do seu filho não afeta só o ambiente da casa, ela afeta o seu corpo, o seu cérebro e a sua saúde mental. E não, isso não significa que você é fraca, significa que você é humana. Como psicóloga e neuropsicóloga, eu gosto de lembrar uma coisa essencial: informação liberta. Quando você entende o que está acontecendo no cérebro da criança (e no seu), a culpa diminui e o manejo melhora.
Vamos olhar para isso com base na neuropsicologia com o acolhimento de uma psicóloga clínica de mulheres?
Neuropsicologia infantil: o que acontece no cérebro da criança durante a birra?
No livro O Cérebro da Criança, de Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson, os autores explicam o cérebro infantil como uma “casa de dois andares”. O andar de cima representa as áreas mais desenvolvidas com o tempo (especialmente o córtex pré-frontal) responsável por pensamento lógico, empatia, controle de impulsos e tomada de decisão. Já o andar de baixo abriga as estruturas mais primitivas, como o tronco cerebral e o sistema límbico, que regulam emoções intensas e respostas de sobrevivência, como a raiva e o medo. A
Racional ou irracional? Aprenda a diferenciar os tipos de birra
Quando falamos de uma “birra racional”, estamos nos referindo a momentos em que o andar de cima ainda está parcialmente acessível: a criança está frustrada, mas consegue ouvir, negociar minimamente ou se reorganizar com ajuda. Existe emoção, mas ainda há alguma ponte com a razão.
Já na “birra irracional”, o andar de baixo assume o controle quase completo. A criança entra em estado de inundação emocional — choro intenso, gritos, rigidez corporal, e o cérebro funciona como se estivesse diante de uma ameaça real. Nesses momentos, o andar de cima “desconecta”, e não adianta usar longas explicações ou argumentos lógicos, porque a parte racional está temporariamente fora do ar. O que ajuda não é convencer, mas regular: primeiro acalmar o cérebro emocional para depois acessar o racional. Entender essa diferença liberta os pais da interpretação de que a criança está manipulando — e orienta uma intervenção mais eficaz e respeitosa com o desenvolvimento neurológico infantil.
O acesso a esse conhecimento é simples para neurocientistas, mas precioso para pais de bebês e crianças, pois é possível entender que a birra não é, na maioria das vezes, manipulação, é imaturidade cerebral. O cérebro infantil ainda está em desenvolvimento, principalmente o córtex pré-frontal, região responsável por:
- Controle de impulsos
- Planejamento
- Regulação emocional
- Tomada de decisão
Essa área leva anos para amadurecer completamente e quando seu filho entra em uma crise irracional, quem está “no comando” é o sistema mais primitivo do cérebro (o andar de baixo), especialmente a amígdala, estrutura ligada à detecção de ameaça e resposta emocional intensa. Para o cérebro da criança, frustração pode ser interpretada como perigo real.
Ela pensa: “É injusto não poder comer doce antes do jantar.”
Ela sente: Frustração, raiva, tristeza…
E sem o pré-frontal amadurecido para modular essa emoção, a explosão acontece.
No entanto, também é possível que a birra seja intencional e racional, proveniente de uma parte do cérebro ainda em construção, mas que está lá. E pra essa birra, é importante que o seu emocional, como mãe ou pai, esteja saudáve para conseguir atravessar por esse momento com calma e estabelecendo limites essenciais para a construção do comportamento do seu filho.
Saúde mental da mãe: e o que acontece no seu cérebro quando o seu filho faz birra?
Agora vem a parte que quase ninguém te conta: quando seu filho grita, chora ou se joga no chão, o seu sistema nervoso também é ativado. O som alto, a imprevisibilidade, a sensação de perder o controle, tudo isso ativa a sua amígdala também. É bem possível que a birra vai vir bem quando você já está cansada, sobrecarregada ou mentalmente exausta, e então o seu córtex pré-frontal (a parte racional) fica com menos energia disponível. O resultado? Você pode ficar mais irritada do que gostaria, agir por impulso, gritar e depois lidar com sentimentos de culpa e frustração por achar que está falhando.
Mas calma, não é falta de amor, nem fraqueza. É neurobiologia sob estresse! Você precisa de estratégias!
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A informação que liberta: “Psi, o que fazer quando meu filho está fazendo birra?”
Quando você percebe que seu filho está acessando o “andar de cima” do cérebro, ou seja, ele consegue argumentar, negociar minimamente ou testar limites de forma intencional, você pode racionalizar dessa forma:
- Ele está frustrado — não descontrolado.
- Ele já tem algum acesso ao córtex pré-frontal, mas ainda está aprendendo a tolerar limites.
- Ele pode estar testando até onde vai a segurança da relação.
A partir desses três pontos de reflexão, saiu a ideia de manipulação maldosa e entra a compreensão de que ele está experimentando autonomia. É importante ter claro que, na birra racional, o que ajuda não é apenas acolher — é manter o limite com firmeza e calma, porque agora o cérebro dele já consegue aprender com a consequência.
Enquanto na birra irracional você regula primeiro e ensina depois,
na birra racional você pode ensinar enquanto regula.
No momento em que você percebeu que a birra do seu filho é irracional, comandada pela amígdala, você pode racionalizar dessa forma:
- A birra não é um ataque pessoal
- Seu filho ainda não tem maturidade cerebral para se autorregular
- E você também pode estar com o sistema nervoso sobrecarregado
Com essas três coisas em mente, algo muda. Sai a culpa, entra a consciência e a consciência abre espaço para escolhas inteligentes e sensatas, que ajudam você a s regular e seu filho a se desenvolver emocionalmente.
Conhecimento na prática: como usar isso a seu favor
Ora, minhas amigas mães, a neuropsicologia não serve só para explicar, ela também serve para orientar. Vamos para algumas dicas práticas?
1️ Observe seu estado antes de intervir
Autoconsciência fortalece seu córtex pré-frontal, e quanto mais ele está ativo, mais você consegue regular a situação. Lembre-se dessas perguntas:
- Estou cansada?
- Estou irritada com outras coisas?
- Estou reagindo à birra ou à minha sobrecarga?
2️ Co-regulação antes de disciplina
A verdade é que o exemplo ainda é a maior ferramenta dos pais na educação de uma criança, ou seja, sim, a criança aprende regulação emocional primeiro através de você. Antes de explicar, corrigir ou ensinar, ajude o sistema nervoso dela a voltar ao equilíbrio:
- Fale com tom mais baixo
- Abaixe-se para ficar na altura dela
- Ofereça presença
A verdadeira disciplina só funciona quando o cérebro está regulado. Em crise, o cérebro não aprende, ele sobrevive.
3️ Cuide da sua saúde mental como prioridade
Preste atenção, se as birras estão te deixando esgotada, irritada ou culpada constantemente, isso não é frescura. Isso é um sinal. Você não precisa “aguentar”, você pode aprender estratégias de autorregulação, compreender seus gatilhos e fortalecer seus recursos emocionais. Cuidar da sua saúde mental não é egoísmo, é proteção e cuidado com a sua família também.
A reflexão que eu quero te deixar
Toda vez que uma birra acontece, duas histórias estão sendo escritas: a da criança, que está aprendendo como lidar com emoções, e a sua, que está aprendendo como lidar com as próprias. Então, a pergunta não é: “Como faço para meu filho parar de fazer birra?” (porque ele não vai parar, ele precisa passar por elas para se desenvolver, e elas podem vir em formato de escândalo emocional, ou de uma rigidez absurda).
Talvez a pergunta seja: “Como posso fortalecer meu cérebro e meu emocional para atravessar isso com mais consciência?”
Informação liberta, e apoio transforma!
Você não precisa atravessar essa fase sozinha. 💛
Aline Santos
Psicoterapia de mulheres | Orientação Parental
CRP 12/29131
Psicóloga Materna Infantil
