Culpa materna e sobrecarga feminina: quando dar conta de tudo começa a custar caro

Existe uma pergunta silenciosa que muitas mulheres carregam no dia a dia, e é provável que você se identifique com ela:

“Por que, mesmo fazendo tanto, eu sinto que nunca é suficiente?”

Oi! Eu sou a Aline, sou Psicóloga Clínica pela abordagem da Terapia Cognitiva Comportamental, pós graduanda em Neuropsicologia e atendo todos os dias mulheres e mães na minha clínica online.

Um ponto que eu repito diariamente em consultas é sobre a importância de visualizar que essa sensação não surge do nada, ela costuma nascer no encontro entre dois fenômenos muito presentes na vida feminina: culpa e sobrecarga feminina. E, quando essas duas coisas se encontram, o resultado não é só cansaço, e sim um impacto direto na forma como você pensa, sente e se comporta.

A sobrecarga feminina não é só excesso de tarefas

A verdade é que quando falamos de sobrecarga feminina, é comum pensar em agendas cheias, múltiplas funções e falta de tempo. Mas isso é só a ponta do iceberg que afundou o titanic. A sobrecarga também envolve:

  • a responsabilidade de lembrar de tudo
  • a necessidade de antecipar problemas
  • o cuidado emocional com as pessoas ao redor
  • a sensação de que não pode falha

Vamos pensar assim: imagine o cérebro como se fosse uma casa com muitos cômodos, e todos esses cômodos estão com as luzes acesas. Você não necessariamente está presente em todos os cômodos, mas tudo está ligado consumindo energia.

O que essa bela metáfora quer dizer é que a sobrecarga não é só sobre o que você faz, é tudo o que está ligado dentro de você, sob tua responsabilidade, e todas as abas que estão abertas dentro do seu cérebro para que ele dê conta. E isso tem um peso imenso, sim.

Você sabia que o cérebro não foi feito para dar conta de tudo ao mesmo tempo?

Você não acha curioso como a gente sabe como funciona muitas partes do nosso corpo? Por exemplo, talvez você saiba que lactose faz mal para o seu intestino, ou que corantes te causam alergia. Você sabe que ficar sem tomar água te dá dor de cabeça ou que se fizer uma trilha seu corpo inteiro vai doer. No entanto, é muito provável que você saiba muito pouco sobre o nosso cérebro e sobre as coisas que impactam ele, nossos sentimentos e nossos comportamentos. Não é?

Dito isso, você sabia que o nosso cérebro não funciona bem em modo de multitarefa? Dentro de um senso comum talvez você acredite que a mulher “consegue dar conta de várias tarefas ao mesmo tempo, e o homem não”, é até piada na internet isso, né? Mas na verdade é que as mulheres convivem com o custo dessa multitarefa: um cérebro sobrecarregado.

Apesar de parecer que você está fazendo várias coisas ao mesmo tempo, o que acontece na prática é uma alternância constante de atenção.

Você começa uma tarefa…
lembra de outra…
responde alguém…
volta… mas já não está no mesmo lugar.

Esse movimento exige uma energia mental, cada troca de foco faz o cérebro “reiniciar” o processo. E, ao longo do dia, isso vai acumulando desgaste. O resultado?

  • mais irritabilidade
  • mais esquecimentos
  • menos sensação de conclusão

E ainda uma sensação persistente de insuficiência, porque se você está em todas as abas abertas dentro de ti, a sensação é que você não fecha nenhuma.

Onde entra a culpa?

“Eu deveria estar fazendo mais”
“Eu não posso falhar”
“Se eu não fizer, ninguém faz direito”

A culpa é um sentimento, e na Psicologia Comportamental acreditamos que sentimentos têm origem em pensamentos. O sentimento de culpa geralmente está enraizado em pensamentos que fazem parte da crença de que É POSSÍVEL dar conta de tudo, e costuma aparecer após essa tentativa de dar conta, alinhada com a “falha”.

Uma reformulação importante de crença aqui pode alterar pensamentos e amenizar a culpa, e essa reformulação parte do ressignificado de “falha”.

A reformulação começa quando a gente desloca a ideia de falha do “não dei conta de tudo” para “tentei sustentar o que é humanamente insustentável”. Afinal, não existe fracasso em algo que nunca foi possível, na verdade existe exaustão. O nosso cérebro não foi projetado para dar conta de tudo ao mesmo tempo, mas para fazer escolhas justas, priorizar, alternar foco de forma saudável. Nesse sentido, falhar não é não conseguir manter todos os pratinhos girando, e sim insistir em girar todos ao mesmo tempo, ignorando limites que são estruturais, não morais. Essa mudança reposiciona a mulher não como alguém insuficiente, mas como alguém que entendeu a lógica impossível de querer estar em todas as abas abertas do cérebro e aprendeu a priorizar sem culpa, construindo uma forma de viver que caiba na própria humanidade.

No estudo do comportamento humano, a gente entende que esses pensamentos que geram culpa não surgem por acaso, eles são aprendidos, reforçados culturalmente e, muitas vezes, sustentados por histórias pessoais. Na prática, a culpa funciona como um combustível para a sobrecarga, porque quando você se sente culpada, você tende a:

  • assumir mais responsabilidades
  • evitar delegar
  • se cobrar ainda mais

Quando a sobrecarga feminina começa a aparecer no comportamento

Embora você sinta a sua cabeça pesada e cheia de pensamentos, a sobrecarga não fica só na cabeça, ela acaba aparecendo no comportamento e na rotina, como na falta de energia de encarar tarefas, nas respostas rápidas, nos silêncios, nas reações que às vezes nem parecem com você.

Na Terapia Cognitiva Comportamental, estudamos a relação entre pensamento, emoção e comportamento, e como esses três pilares estão conectados, ou seja, o que você sustenta por dentro inevitavelmente se expressa por fora. E é assim que a sobrecarga começa a se tornar visível no cotidiano.

Mais reatividade

Você responde de forma mais intensa do que gostaria, se irrita com quem ama, sente que “perde a paciência” com frequência. Isso tudo pode parecer uma simples falta de controle, mas é um cérebro cansado tentando dar conta de estímulos demais, com uma dificuldade única de controle.

Mais evitação

Você já sentiu que começa a adiar tarefas, ou já sentiu dificuldade de começar coisas simples? Até se vê evitando tomar decisões? Isso não é preguiça, ou um simples cansaço, é a sobrecarga aparecendo em falta de energia, e ansiedade por demandas.

Isso quer dizer que quando tudo parece demais, o cérebro tenta proteger você… evitando.

Entre caos e rigidez: a mente da mulher sobrecarregada

Em meus atendimentos eu gosto de usar uma forma simples de entender a saúde mental, através de uma metáfora do rio, proposta por Daniel J. Siegel no livro O Cérebro da Criança.

Imagine um rio.

De um lado está o caos: emoções intensas, explosões, sensação de perda de controle.

Do outro lado está a rigidez: controle excessivo, autocobrança, dificuldade de sentir ou pedir ajuda.

A ideia é observar a saúde mental como o fluxo do rio, passando em equilíbrio entre o caos e a rigidez.

Quando a gente identifica uma mulher sobrecarregada, é comum observar que ela foi empurrada para uma das margens (ou em alguns casos, intercalando entre as duas):

por muito tempo na rigidez (“eu dou conta”)
até que, em algum momento, cai no caos (“eu não aguento mais”)

E isso não é uma falha pessoal, e sim o resultado de tentar sustentar um nível de exigência e de demandas alto por tempo demais, sozinha.

Sinais de alerta que merecem atenção no processo de culpa e sobrecarga feminina

É muito importante entender que a sobrecarga nem sempre é óbvia, justamente porque culturalmente, um senso comum construiu esse espaço onde a mulher “é capaz de ser multitarefas” e isso não é uma verdade científica. O nosso cérebro demanda energia para dar conta de tantas tarefas simultâneamente. E nesse caso, o corpo, a mente e o comportamento costumam dar sinais:

  • irritação frequente
  • sensação constante de estar no limite
  • esquecimentos
  • dificuldade de concentração
  • cansaço persistente
  • dificuldade de relaxar
  • sensação de estar sempre atrasada com a própria vida

Se você se reconhece nisso, vale parar e olhar com mais cuidado para essa jornada de crenças e pensamentos, amenizando a culpa de priorizar tarefas em busca de uma qualidade de vida emocional.

Coisas como priorizar demandas e dizer “não”, não indicam uma falta de capacidade, é uma maneira inteligente e humana de lidar com excesso de carga. E quem vai se beneficiar da sua saúde mental é a sua família.

Esse talvez seja um ponto importante de reflexão: é possível dar conta de todas as luzes acesas no seu cérebro nesse momento? Todas as preocupações, todos os desejos e sonhos, todas as demandas de tarefas… e tudo isso sozinha? Mudar essa perspectiva é fundamental, porque tira você do lugar de culpa… e te coloca em um lugar de consciência.

E o que pode começar a mudar?

Você não precisa (e muito provavelmente não vai) resolver tudo hoje. Mas você pode começar com pequenas mudanças de direção:

  • questionar a ideia de que precisa dar conta de tudo sozinha
  • observar seus pensamentos com mais gentileza
  • dividir responsabilidades, mesmo que seja desconfortável
  • reconhecer seus limites sem transformar isso em falha

Além disso, em alguns momentos, buscar ajuda profissional é um caminho necessário que te tira do lugar solitário de resolver (mais) isso sozinha. A ajuda psicológica não entra como último recurso, e sim como forma de cuidado preventivo, de manutenção.

Um novo tipo de força

Existe uma ideia muito comum de que força é dar conta de tudo. Mas, na prática, essa ideia não é lógica e costuma levar à exaustão. Talvez um novo conceito de força seja necessário:

  • a força de reconhecer limites
  • a força de pedir ajuda
  • a força de não se abandonar no processo

Para levar com você

A culpa materna e a sobrecarga feminina não são sinais de fraqueza, são na verdade sinais de um sistema exigindo mais do que é sustentável. E você não precisa esperar chegar no limite para cuidar disso. Porque viver com tudo “ligado” o tempo inteiro não é o único jeito de viver, você pode priorizar uma luz sem se culpar por todas as outras luzes acesas.

Aline Santos

Psicóloga e Neuropsicóloga

Sou a psicóloga e neuropsicóloga que compreende as complexidades da vida moderna e da dinâmica familiar. Combino expertise técnica com acolhimento para te dar as ferramentas certas que te ajudam a superar ansiedade, baixa autoestima e dificuldades de relacionamento. 

Eu te ajudo a encontrar novos caminhos com leveza!

Quer saber mais?

Estou disponível para responder suas dúvidas e fornecer mais informações sobre os serviços oferecidos.

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Psicóloga clínica especializada em terapia cognitivo-comportamental, oferecendo um espaço seguro para seu bem-estar emocional.

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